Ontem
á noite estive a falar ao telefone com a minha tia Virgínia. Já não os
via, nem tinha notícias deste ramo da minha família, á bastante tempo.
Contou-me que o meu tio Armindo tinha-se descarrilado na vida...Fiquei
estarrecido, pois o meu tio era para mim um exemplo de pessoa. Pedi-lhe
que me contasse o que acontecera, e ela assim o fez:
Aqui há uns
três anos e tal, o meu tio fez algo que lhe mudou radicalmente a vida.
Ele toca acordeão desde tenra idade, arte que lhe fora ensinada pelo
pai.
Ora há três anos atrás, o meu tio adaptou para esse
instrumento, a banda-sonora do filme "2001 - Odisseia no Espaço". Fê-lo
por amor á música, sem qualquer intuito comercial. No entanto, Carlitos,
o seu filho mais novo, gravou-o a tocar a dita peça musical e editou a
gravação na internet.
Certo dia, a minha tia, que de música não
percebia nada, recebeu uma chamada dos estados unidos, de Hollywood (por
acaso também não percebia nada de filmes, embora fosse grande fã do
Ingmar Bergman). Alguém associado a grande estúdio de produção queria
falar com o meu tio, pois tinha ficado passado com o que ouvira na net, e
queria contratar o meu tio para fazer a banda-sonora de um filme.
Mandou logo chamar o Armindo á tasca, e assim se viu o meu tio envolvido
na produção de uma longa-metragem de grande orçamento.
Lá em casa
ficaram todos maravilhados! O meu tio estava prestes a ficar famoso e,
ainda por cima, rico. Minha tia até ficou com altas ideias de fazer
trabalhos de costura para as grandes estrelas, como a Michelle Pfeiffer e
a Angelina Jolie!
Trocaram-se uns e-mails e tal, e lá meu tio
começou a compor uns trechos de acordeonadas valentes. Passou manhãs e
tardes inteiras na sua eira a compor.
Veio o dia em que teve que ir á
americolândia para se reunir com a equipe de produção. Esteve ausente
durante nove semanas e meia e quando regressou, não era o mesmo
homem...tinham cancelado a produção do maldito filme! (o filme iria-se
chamar "American Troll 2" e nele contracenariam John Torturro, Andy
Garcia e Anne Rose, que por sinal, tinha o mesmo nome que a primeira
grande paixão do meu tio, Ana Rosa, e ele envolveu-se com ela desde o
primeiro dia que chegou aos states.)
Regressou a Cantanhede
derrotado, mas a minha tia perdoou-lhe a traição e lá consegui
consolá-lo. A carreira musical de sucesso tinha-se-lhe escapado pelos
dedos das mãos.
Passaram-se um par de meses, quando apareceu-lhes um
pintas á porta, a dizer que era produtor musical e que queria falar com
o Sr.Armindo. Este homem que agora se apresentava aos meus tios,
trabalhava para a editora discográfica do Quim Barreiros, e contou que o
grande Quim ouvira o registo musical do meu tio na net, e mandara-o ali
para lhe oferecer um lugar na sua banda como segundo acordeonista, para
gravar um álbum e fazer uma tournée por terras lusas e França,
Luxemburgo e Suíça. Armindo aceitou de imediato, e foi aí que começaram
os problemas...
Mal começara a digressão, o meu tio, não habituado a
tais andamentos, estragou-se completamente, bebendo a cada concerto,
mais e mais vinho do que o que já estava habituado. Começou a bater nas
bailarinas, a destruir o equipamento durante as apresentações ao vivo, e
até chegou a andar ao fight com o próprio Quim Barreiros. Colapsou no
penúltimo concerto da digressão, no Olympia de Paris, e veio recambiado
para Cantanhede. A minha tia nada consegue fazer dele agora. Pegou fogo
ao acordeão na eira, num acesso de fúria alcoólica. Por estes dias bebe,
bebe cada vez mais.
Ora eu que tinha-lhes telefonado porque andava a
pensar em pedir ao meu tio para fazer uns arranjos para a minha nova
banda de punk-rock rural, "Os Espinafres", fiquei triste com toda esta
situação. Um dia destes, visitarei os meus tios, mas já não hei-de levar
uma garrafinha de tinto da zona de Palmela (por acaso estão em promoção
no Pingo Amargo) que ele tanto gostava...
Fmi