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domingo, 23 de outubro de 2022

"A Gosma "- pequeno exercício de escrita criativa


 Já era noite

 Estávamos de rastos, completamente esgotados. 

De repente alguém reparou:

 - Foda-se, o alguidar está vazio!

 Antunes referia-se ao recepiente onde tínhamos deixado o último pedaço de gosma

contra quem tínhamos estado a lutar.

-Procurem-na! - gritou com os olhos completamente esbugalhados, emanando um alto terror.

Valéria agarrou com toda a força a enxada, preparada para estraçalhar aquela nojenta beca de 

criatura feita em laboratório.

 Eu tinha a minha "six shooter" do tempo dos "cow-boys" e uma sacola cheia de balas. O Antunes 

 tinha uma fisga de caça, toda moderna, que disparava esferas de aço de 6 mm, as quais tinha também 

bastantes.

 Aquele bocado de gosma verde tinha ficado no mesmo compartimento que nós, resultado do "fight"

 que tínhamos tido há pouco com a criatura, para que esta não conseguisse entrar. Não pensámos que 

 pudesse mutar, por isso atirámo-lo para dentro daquele alguidar 

Ouvimos um barulho.

 A puta descia pela parede, e eu, a arfar, apontei a pistola e preguei-lhe duas ameixas, mas começou a 

 rabinar e a aumentar de tamanho, parecia uma mama gigante, verde e viscosa e com dentes de titânio,

 que foram prontamente "tratados" pela enxada de Valéria. Ainda a Gosma tava a ganir, já o Antunes   

 tinha enfiado cinco ou seis projécteis pelo que aparentava ser o centro de comando do bicho, por nós 

 vulgarmente conhecido por "cérebro".

 Não serviu de nada, morremos todos.

 Se tivéssemos um lança-chamas, tínhamos nos safado!

 A última coisa que me lembro foi de pensar, enquanto me esvanecia pelo éter afora, que nem se o       

que me tinha acabado de acontecer fora real, ou se apenas fora uma das minhas ideias para fazer uma   

banda-desenhada que eu tanto queria que alcançasse um sucesso tal que me permitisse dar uns 

autógrafos valentes no festival de banda-desenhada da Amadora....

segunda-feira, 18 de março de 2019

"O Anti-corrosivo"


        "O Anti-corrosivo"

 Certamente que qualquer um de vós já se deparou com a seguinte situação:
  Uma pessoa chega a casa, entra, e depara-se com um elefante sentado no meio da sala de estar. Na cozinha está o tratador do animal, de kalashnikov ás costas,frigorifico aberto, calmamente a fazer um batido de frutas, com uma descontração tipica de um revolucionário sul-americano, convertido ao veganismo.
 A tua primeira reacção, normalíssima: correr para o quarto, direitinho ao sitio onde guardas a tua arma (que seja um revolver, pois são mais fiáveis, nunca encravam). Mas ao abrir a porta, deparas-te com um cenário bem diferente, mas igualmente perturbador, pois em vez do teu acolhedor quarto, este é agora uma paragem de autocarros, com três pessoas á espera, e uma delas pergunta-te a que horas passa o 28 para o Cais do Sodré...
 Voltas para trás, apenas para encontrares a casa completamente vazia e com uma cor alaranjada, muito intensa, que rapidamente apercebes-te ser, ao olhar para a janela, o clarão duma explosão nuclear, com um enorme cogumelo de fumo e fogo a subir os céus! É então que corres para a porta, sais para a rua, mas és bloqueado por um troll em cima de um edredom mágico, a deitar fumos psicadélicos pelas orelhas.
 É nesta altura que o teu cérebro começa a questionar se estás num estranho sonho, ou que o LSD nos anos 90 não era assim de tão má qualidade, ou até ainda se foste alvo de alguma arma psicotrónica de última geração! 
 Por fim, dás por ti deitado no sofá, com as chaves de casa na mão e uma terrível dor de cabeça. 
  A mim, neste ponto, veio-me á lembradura que antes de saír do trabalho, tinha emborcado meio litro de um frasco de anti-corrosivo que vendo lá, a oito euros o litro...

                                                  Fmi 

sexta-feira, 16 de junho de 2017

"Assalto e bateria" - conto


 Estava eu em casa a trabalhar na reprogramação do meu adn a fim de me transformar num super-herói, quando alguém tocou á campaínha. Eras duas jovens que me perguntaram se  dispunha de alguns minutos para falar sobre "death-metal". Disse que não, que não era o momento ideal. Elas insistiram. Recorrendo da generosa borrachália que possuíam, as quais estes olhos que um dia o crematório há-de arder não conseguiam parar de sondar, tentaram seduzir-me. E a verdade é que foram bem sucedidas. Já mal conseguia resistir a aplicar-lhes um valente mosh erótico!
 Expliquei-lhes que para além do momento não ser o ideal (visto estar prestes a fazer história), eu nem sequer gostava daquele género musical, nunca gostei, nem nos saudosos tempos das rádios pirata, em que cheguei a ganhar cassetes...enfim, nada tinha a ver eu com essa religião. Disse-lhes que o único tipo de música que ouvia era a clássica, mas só quando estava bem disposto, ou seja, quase nunca. Elas riram-se.
 Ás tantas, já uma delas mostrava-me a tatuagem que tinha no ombro enquanto a outra já me segurava a mãozinha e segredava-me coisas bonitas sobre o apocalipse, e eu já não aguentei mais...Comecei a puxá-las para dentro de casa e aí é que foi o caraças!
 Mudaram imediatamente de atitude, e aplicaram-me um golpe nas partes fundamentais, o que me causou uma agonizante dor extrema e me deixou numa posição submissa que elas logo aproveitaram para desferir uns valentes carolos na tola. Fiquei prostrado no chão, e elas abandonaram o local ás gargalhadas.
 Após recuperar daquele assalto e bateria, fechei a porta e reflecti um pouco sobre o que acabara de me acontecer. Resolvi cagar pó assunto, fui buscar uma cerveja e acendi um cigarro. Liguei a aparelhagem e escolhi o meu CD preferido de Six Feet Under. Sentei-me no sofá a abanar a carola para cima, para baixo, para cima, para baixo.
 
Fmi

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Mais um pequeno conto:

 "O enigma da Calhandriz"

Passava eu a ponte 25 de abril com a minha mulher, ao volante do meu trabi, em direcção a Lisboa, quando aquilo aconteceu. Uma linda  manhã de Primavera, a minha mulher até trazia três ou quatro mijonas a enfeitar o cabelo (parecia ela que ia para S.Francisco), e o céu estava mais que limpo.
 De repente, um bando de calhandras-drone atacou um carro vermelho com matricula paquistanesa que circulava uns metros á nossa frente. Um verdadeiro ataque suicida, pois cada calhandra explodia logo após embater no veículo, deixando-o em chamas e envolto numa enorme nuvem de fumo preto.
 Eu digo-vos que eram drones, e tenho a certeza do que vos digo, pois eu sou um ornitólogo amador mas experiente, e sei que é impossível observar aquele padrão de voo tão agressivo num pássaro como a calhandra, tanto menos explodirem ao embater em algo. Eram, indiscutivelmente, drones.

 Deduzia eu que estava perante uma espécie de atentado, e já alguns motoristas tentavam , em vão, apagar as chamas com a ajuda de pequenos extintores, quando uma enorme calhandra-drone de metal saltou do fogo! Elevou-se algumas dezenas de metros no ar, parou por alguns momentos, e de seguida voou velozmente em direcção ao céu, qual fénix renascida das cinzas.
 Todos os que estavam naquela ponte ficaram incrédulos a olhar para o céu! Quando deixamos de ver aquele estranho pássaro, a única coisa que restou foi um brilho intenso, que se extinguiu rapidamente. 

Este foi o acontecimento mais estranho que alguma vez observei, o que ainda piorou após a minha mulher me informar do localidade para onde nos deslocávamos: Calhandriz, ali pós lados de Bucelas...

 Fmi

sexta-feira, 26 de maio de 2017

"Que sa foda o Telejornal"

 "Que sa foda o Telejornal"

Quando um gajo começa a pensar bué no apocalipse, tá tudo engatado.
 A mim aconteceu á relativamente pouco tempo. Quero dizer, a mim não, ao meu amigo imaginário.Que sou eu, mesmo no fim do cabo...
 No entanto, paris estava a arder. Não literalmente, mas de uma forma tão subtil, que era possível fornecer aquecimento gratuito a centenas de pessoas. Ou animais. Ou robots do tipo WHATEVER.
 Foram os jardineiros que encontraram aquilo que várias gerações procuravam, não há séculos, como se pode logo facilmente imaginar, mas ao mesmo tempo, visto existirem dados que não haviam ainda sido propriamente analisados duma maneira mais brutal, dados esses que podem comprometer a coisa.
 De repente, pumba, pensei outra vez no apocalipse. Mas desta vez, de uma maneira muito mais convencional:
 "- Uma bola de fogo, a caír do céu...e que sa foda o Telejornal!"
Fmi

 Texto escrito ontem á noite, antes de ir pá caminha, após ter regressado duma stonalhada no videocoffee da Katrina, usando o tradicional método da escrita automática.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

"As Gaitas do Cemitério"

Na aldeia onde eu vivia, existia um pequeno cemitério que tinha lá umas gaitas para as pessoas tocarem. Cada vez que alguém tocava uma dessas gaitas, uma ovelha mandava uma peidaça tão grande que até se ouvia na aldeia mais próxima. Quando várias pessoas tocavam as várias gaitas, era um fartote!
 Algumas não funcionavam somente com as ovelhas, mas também com as vacas, só que de outra maneira: faziam-nas rir. A vaca que ri, daquela porcaria de queijo francês que dá na TV, veio lá da minha terra.
 Quando vinham os imigrantes, nas férias do Verão (na aldeia não celebrávamos o natal, os mais antigos eram espertos e tinham queimado a igreja e morto o padre), guardávamos as gaitas todas para que eles não as tocassem. Não tivessem imigrado. Eles diziam que iam fazer queixa á guarda, mas nós riamos e dizíamos-lhes que Castelo Branco ficava mais perto, ah,ah,ah!
 Certa vez, um artista de gravatinha queria levar o pessoal ao Japão, para fazermos um concerto com as gaitas, as ovelhas e tudo. Mandámos o gajo ás merdas, pois as gaitas nunca saíam do cemitério e só as tocávamos para nós. Quando as vindimas não corriam bem e o vinho não saía lá muito bom, nem sequer as tocávamos! 
 Não irei revelar o nome da minha aldeia, por razões óbvias, mas se alguma vez forem pó interior do país e ouvirem ovelhas a cagarem-se e vacas a rir, ao som de umas gaitadas, ficam a saber que para esses lados fica a minha terra!

 FMI

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

"O Sólidó" - Conto


 Dois músicos, um concerticionista e um acordeonista, juntaram-se numa esquina. Eram amigos de longa data, tinham estudado juntos no conservatório:

 - Então pá, tá tudo bem contigo?
 - Tudo, pá, tudo! E tu, o que tens feito?
 - Olha, vim agora do Orfeão, fui lá entregar uma peça musical que me encomendaram. Chamei-lhe " O Sólidó". Andei três meses a compô-la, deixou-me esgotado. E tu pá, que dizes da vida?
 - Banzai!!!
 - Ãh?
 - Banzai!...Não me digas que nunca disseste banzai?
 -Sim...uma vez ou outra. Porquê?
 -Ora, ora, tu sabes bem o porquê da minha pergunta!
 - Não, não sei...
 -Banzai!!!
 -Olha, Banzai para ti também...
 Vai um começa a tocar concertina, e o outro, acordeão.

 ( "O Sólidó" nunca chegou aos top's, mas foi recentemente considerado património imaterial da humanidade).

 FMI               

terça-feira, 5 de julho de 2016

"Auto-Esbardel: Esbardalhanço automóvel (conto)

(este pequeno conto é dedicado ao meu puxo, que é um puto...bué da fixe!)
Uma enorme pilha de carros, tudo ao molho uns por cima dos outros, com óleozinho a verter.. Retrovisores pelo chão, a alguns metros de distância, faziam já adivinhar o que encontrariamos a seguir.
 

Se fores mecânico é melhor não leres isto, pois o que irei descrever certamente não é para estomâgos leves...

Aquele asfalto estava feito num oito. Uma carrinha espalmada á beira da estrada, branquinha, tinha pintado a spray preto os seguintes dizeres:
"-Mad Max Mijou Aqui!". No chão, um xis marcava o lugar.
Garrafas de nitro vazias jaziam pelo chão e pelo ar, um bafo intenso a gasolina ofendia-nos as narinas. Nas bermas, enormes placares com o símbolo da Ferrari a arder, assombravam ainda mais o local. Uma pick-up ceguinha pedia que lhe dessem moedinhas para comprar combustível. O cadáver de uma limusina era rebocado por um veículo eléctrico não identificado. Pequenos carrinhos orientais deitavam ranho pelos faróis. Radiadores e cambotas batiam-se contra manetes de mudanças e bielas ferrugentas. Buzinas entregavam-se de mão beijada aos braços de decrépitos alternadores avariados. Facilmente poderíamos escorregar naquele chão besuntado de lubrificante barato e marrar cús cornos num Corvette dos anos 60. Havia ali muito carro, mas nenhum carro conceito (esse era um tipo de carro que passava sempre uma boa vida).
Era tempo de mudanças. Primeira, segunda, terceira, quarta e quinta, era sempre a abrir! Um capacete de piloto de Formula 1 mijava nervosamente contra um pneu sobresselente de uma velha roulotte de luxo. Repentinamente, um gato cinzento saltou de dentro de um carocha pelo buraco do tejadilho e largou um agudo miau que acabou por estalar o vidro do porta-bagagens de um Mini Morris que outrora pertencera ao Mr.Bean. Um grupo de fordes fiesta e renaultes clio,bêbados, faziam enorme estradalhaço a discutir enquanto mamavam anti-congelante estragado.
O cenário era tão automobilisticamente dantesco que tive de fugir dali para fora. Procurei refúgio, e encontrei-o numa oficina abandonada.
Fmi

quarta-feira, 29 de junho de 2016

"A minha colecção de berlindes" - conto

 Certa vez, fui ao Centro Cultural perguntar se estavam interessados em fazer uma exposição com toda a minha colecção de berlindes.
 Disseram prontamente que não, que era uma coisa que não despertaria interesse algum da parte do público. Estúpidos! Eu que arduamente e ao longo de vinte e tal anos,  tinha reunido 17.638 berlindes! Tinha-os de todas as cores e variados tamanhos, de todos os cantos do mundo!
 Disseram que não. Preferiam mostrar ás pessoas as criações daquela pseudo-artista gorda e parva, afilhada das elites.  E como eram bonitos os meus berlindes...Fiquei  piúrso, , com vontade de esganar todos aqueles intelectualóides de merda (que deus me perdoe).
 Regressei a casa com um tal desejo de vingança que tive de beber uma bagaceira velha de penalty, mas, com os nervos, falhei a grande penalidade e entornei por mim abaixo o tão precioso liquído.
 Três dias depois, estava á porta do Centro Cultural a fazer uma espera aquelas bestas. Esperei ca tempos, mas não fora em vão.Começaram a saír  e a dirigirem-se para os seus carrinhos de alta cilindrada. Segui sorrateiramente a besta-mor, aquele que tão friamente me havia dito o NÃO.
 Quando parou junto ao carro, puxei da minha fisga Xpto que tinha adquirido para o efeito, estiquei-a ao máximo e, como projéctil, pus-lhe um bifa verde-jade que tinha comprado a um xamã sul-africano em 1992...e pimba!!! Mesmo nos cornos! Caíu inanimado. Recolhi rapidamente o berlinde, que tinha ido parar debaixo de um carro mais á frente. Verifiquei que não havia ninguém a presenciar, tirei o passa-montanhas da carola e afastei-me calmamente do local. Estava satisfeito com aquela refeição fria gourmet que havia servido ao meu desejo de vingança. No dia seguinte vi nos noticiários que o cabrão havia falecido  e a sua morte era agora um mistério para a bófia.
 Hoje em dia sou um artista plástico de sucesso. Tirei um curso de belas artes e vi recentemente 
 uma das minhas obras expostas naquele malogrado Centro Cultural: um Audi A6 revestido com centenas de brilhantes berlindes que usei da minha própria colecção.
 A exposição foi um sucesso.
 Fmi

terça-feira, 28 de junho de 2016

"Arménio da Giribita" - conto


 Tava tudo em alvoroço nos Casais da Giribita. Arménio tinha lançado a polémica: ia atravessar a nado o Ribeiro de Alpalhoa, conhecido pelos fortes rápidos e águas gélidas.
 - Vou mergulhar junto ao local onde encalhou o iate do Cristiano Ronaldo. Vai ser uma grande festa, com a banda de Bucelas a tocar a 5ª Sinfonia de Beethoven e tudo! - anunciou em praça pública.
 Arménio mal sabia nadar, mas quando punha uma coisa na cabeça era para levar até ao fim. Começou a treinar no tanque da horta dos seus pais, já ia para 6 meses. Treinos duros, chegando ao ponto de calçar umas luvas e umas meias de lã grossa e fechar-se dentro da arca congeladora durante largos minutos.
 A sua namorada (já desde os tempos da escola), Maria Sarrafo, apoiava-o sempre nestas iniciativas, mesmo sabendo que ele era maluco. Esta vez não seria excepção.  Como queria executar o feito durante o mẽs de Agosto (estávamos em Junho), altura em que a sua terrinha estaria pejada de imigrantes que ali estariam de férias, foi a Lisboa comprar uns calções especiais, feitos duma malha sintéctica que imitava a pele de tubarão, e também para se aconselhar junto de alguns atletas profissionais do Algés & Dafundo.
 De regresso aos Casais da Giribita, o autocarro no qual viajava teve um aparatoso acidente: chocou a mais de 100 km/h com a carrinha do canil municipal, carregada com canitos vadios que tinham sido apanhados nas redondezas durante os últimos dias. Não houve mortes, apenas alguns feridos ligeiros, tendo os pobres cães levado a melhor, pois inesperada embora violentamente, tinham reconquistado a sua tão preciosa liberdade.
 Ora no meio da atordoada matilha que se punha em fuga, quem é que o Arménio viu? O Putchi! O podengo que houvera desaparecido de sua casa há muito tempo, que era o seu mais querido animal de estimação (tinha vários, incluindo uma cabra albanesa das montanhas) e que pensava ter perdido para sempre.
   Este acaso da "Estranha Providência" alterou todo o panorama psicológico-mental do nosso amigo. Foi imediatamente falar com o presidente da junta de freguesia a dizer que ia desistir da travessia do ribeiro, pois a sua vida iniciava agora um novo ciclo. Pediu imensas desculpas, e assim deu por terminada a sua vontade de realizar um dos maiores feitos que aquela terra já houvera aspirado.
 Tinha agora um novo e único objectivo em mente:
 Iria a Fátima, não a pé, mas de quatro, como o seu fiel amigo que o acompanharia..

 Fmi

sábado, 4 de junho de 2016

"Sapo dos Montes" - Brain Estorving 1

O sapo dos montes era um pequeno ser mágico que vivia perdido na planície do Além. Além-mar, Além-terra, tanto faz, desde que se senti-se bem. E sentia-se.Não gostava de jantar e tinha a cabeça redondinha, como uma pinha de amaranho. Arrumava-se ao cutelo, num cantinho próprio que os deuses do limbo lhe construíram na madrugada da Existência. Nã era mundano e sentia-se pleno, mesmo quando era cirurgicamente  enxovalhado. Sempre a seu lado, numa mesa de operações, um divertido coração "coquette" ria-se desenvergonhadamente. Ás vezes pedia-lhe incenso, mas este quase sempre lhe dava mirra, e quando isso acontecia, era uma festa, uma valente farra que se estendia até ao Pantanal. Aí, uma porca torcia o rabo de um babuíno, e através dos lancinantes gritos de dor e com a ajuda de um telefone analógico, o sapo dos montes conseguia facilmente abrir as portas da percepção, havendo apenas como testemunha, um guarda-livros que trabalhava no Palácio Máximo das Virtudes, em Sta.Iria da Azóia. Para fechá-las era o cabo dos trabalhos...

Fmi

quinta-feira, 26 de maio de 2016

"O meu tio de Cantanhede" - conto


                                                  
 Ontem á noite estive a falar ao telefone com a minha tia Virgínia. Já não os via, nem tinha notícias deste ramo da minha família, á bastante tempo. Contou-me que o meu tio Armindo tinha-se descarrilado na vida...Fiquei estarrecido, pois o meu tio era para mim um exemplo de pessoa. Pedi-lhe que me contasse o que acontecera, e ela assim o fez:

 Aqui há uns três anos e tal, o meu tio fez algo que lhe mudou radicalmente a vida. Ele toca acordeão desde tenra idade, arte que lhe fora ensinada pelo pai.
 Ora há três anos atrás, o meu tio adaptou para esse instrumento, a banda-sonora do filme "2001 - Odisseia no Espaço". Fê-lo por amor á música, sem qualquer intuito comercial. No entanto, Carlitos, o seu filho mais novo, gravou-o a tocar a dita peça musical e editou a gravação na internet.
 Certo dia, a minha tia, que de música não percebia nada, recebeu uma chamada dos estados unidos, de Hollywood (por acaso também não percebia nada de filmes, embora fosse grande fã do Ingmar Bergman). Alguém associado a grande estúdio de produção queria falar com o meu tio, pois tinha ficado passado com o que ouvira na net, e queria contratar o meu tio para fazer a banda-sonora de um filme. Mandou logo chamar o Armindo á tasca, e assim se viu o meu tio envolvido na produção de uma longa-metragem de grande orçamento.
 Lá em casa ficaram todos maravilhados! O meu tio estava prestes a ficar famoso e, ainda por cima, rico. Minha tia até ficou com altas ideias de fazer trabalhos de costura para as grandes estrelas, como a Michelle Pfeiffer e a Angelina Jolie!
 Trocaram-se uns e-mails e tal, e lá  meu tio começou a compor uns trechos de acordeonadas valentes. Passou manhãs e tardes inteiras na sua eira a compor.
 Veio o dia em que teve que ir á americolândia para se reunir com a equipe de produção. Esteve ausente durante nove semanas e meia e quando regressou, não era o mesmo homem...tinham cancelado a produção do maldito filme! (o filme iria-se chamar "American Troll 2"  e nele contracenariam John Torturro, Andy Garcia e Anne Rose, que por sinal, tinha o mesmo nome que a primeira grande paixão do meu tio, Ana Rosa, e ele envolveu-se com ela desde o primeiro dia que chegou aos states.)
 Regressou a Cantanhede derrotado, mas a minha tia perdoou-lhe a traição e lá consegui consolá-lo. A carreira musical de sucesso tinha-se-lhe escapado pelos dedos das mãos.
 Passaram-se um par de meses, quando apareceu-lhes um pintas á porta, a dizer que era produtor musical e que queria falar com o Sr.Armindo. Este homem que agora se apresentava aos meus tios, trabalhava para a editora discográfica do Quim Barreiros, e contou que o grande Quim ouvira o registo musical do meu tio na net, e mandara-o ali para lhe oferecer um lugar na sua banda como segundo acordeonista, para gravar um álbum e fazer uma tournée por terras lusas e França, Luxemburgo e Suíça. Armindo aceitou de imediato, e foi aí que começaram os problemas...
 Mal começara a digressão, o meu tio, não habituado a tais andamentos, estragou-se completamente, bebendo a cada concerto, mais e mais vinho do que o que já estava habituado. Começou a bater nas bailarinas, a destruir o equipamento durante as apresentações ao vivo, e até chegou a andar ao fight com o próprio Quim Barreiros. Colapsou no penúltimo concerto da digressão, no Olympia de Paris, e veio recambiado para Cantanhede. A minha tia nada consegue fazer dele agora. Pegou fogo ao acordeão na eira, num acesso de fúria alcoólica. Por estes dias bebe, bebe cada vez mais.
 Ora eu que tinha-lhes telefonado porque andava a pensar em pedir ao meu tio para fazer uns arranjos para a minha nova banda de punk-rock rural, "Os Espinafres", fiquei triste com toda esta situação. Um dia destes, visitarei os meus tios, mas já não hei-de levar uma garrafinha de tinto da zona de Palmela (por acaso estão em promoção no Pingo Amargo) que ele tanto gostava...

Fmi

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

"Malafaina" - conto

O barco voltava da faina sem peixe.
 Os pescadores, cabisbaixos, dirigiram-se cada um para sua casa, lentamente, para junto das suas desconsoladas mulheres, para junto dos seus esfomeados filhos.
 A praia era um cenário desolado. O barco vazio...um chapéu do benfica abandonado na areia.
Aqui e ali, mini garrafas de cerveja tombadas. O frio estalava naquela triste noite, onde nem mort'alma circulava.
 O que seria daquelas pobres familías? Que futuro, sem peixe...e já era a décima quinta vez consecutiva que voltam da faina com as redes vazias.
 O mar acalmou. Da casa mais junto á praia ouviu-se o fechar duma janela e o imperceptível som seco de uma mini garrafa a aterrar na areia.
 Nisto, duma pequena onda, salta um atrevido carapau luzidio que diz bem alto:
 - Nhã, nhã, nhãnhã!!!

Fmi

terça-feira, 9 de junho de 2015

"Sonho de um Gândulo" - conto

Misturado com a furnitura, de rabadilha alçada, semblei de soslaio dois vultos.
Uma luz ténue conseguiu-me ajudar a classificá-los cognitivamente como sendo a Rita Red Shoes e o Passos Coelho.
Mamavam na boca um do outro. O Passos vestido á militar, a chavala tinha uma camisa "Tê" da Nestlé e umas cuecas de renda norueguesa. Instintivamente percebi que não tinham dado conta da minha presença, pelo que me mantive oculto. Reparei também que os bolsos do Passos estavam atufalhados de notas de 50.
Ui! Vi naquele cenário surrealista garantia de cerveja fresca para o Verão inteiro e, talvez uma ponta-e-mola com cabo de madrepérola que eu já namorava de outros sonhos.
Encostada a um canto, uma espingarda de sniper, muito bonita, que eu carinhosamente batizei á pressa de "Papa-Células". Dei uma fogachada no gajo e este tombou automáticamente para o lado. A rapariguinha deu um grito e eu corri a agarrar umas quantas notas, e vi que o corpo começava a desmaterializár-se. Desapareceu.
Olhei pá miúda. Tinha-se transformado numa toutinegra da Berbénia e esvoaçava alegremente ali á volta.
Acordei.

FMI

segunda-feira, 4 de maio de 2015

"O Arrebatamento Cientifíco" - conto

Tal como na história que a Biblía conta, também Leonard Nimoy, o Spock, sacrificou a sua vida para salvar os homens. Mas só os que pertencem á comunidade cientifíca! Os restantes não.
 O Outro, que ainda se encontra entre nós, o Cientista-Mor (aquele que está entrevado), irá conduzir todos esses homens para a salvação eterna, abrindo um vortex, um buraco-minhoca sagrado que os levará para um lugar especial. Assim que o Cern ( European Organization for Nuclear Research) for activado completamente, as orelhas de todos esses cientistas ficarão em bico, e eles saberão que está na hora.
 Agora só lhes resta dançar em cima da tabela periódica dos elementos e beijar os reactores de fusão nuclear, aguardando pela prometida purificação cientificó-sagrada.
 Se o Spock falhar, a nave-mãe Galáctica (Batllestrela) irá resgatá-los de volta, pois a Enterprise tá sem seguro intergaláctico.

 FMI

quinta-feira, 16 de abril de 2015

"A Flora Passiva" - conto

A primeira célula terrorista anti-governo instalara-se em Vialonga em 1978.O seu nome"Passiflora", tornara-se palavra proíbida na freguesia desde o momento em que foi proferida em público.
 Assentaram quartel nas catacumbas do "Refúgio do Mocho". Mocambel (nome de código), era o oficial máximo da organização. Dissera aos outros, na altura, que o plano estaria concluído em 2015.
 E assim foi. Volvidos todos estes anos, é com orgulho que vos comunico que hoje será levado a cabo o maior ataque de sempre a uma instituição estatal portuguesa:
 As Finanças de Alverca (Alverca AT)!
 Dezassete homens-bomba estão neste momento a bordo de um autocarro , dirigindo-se ao seu alvo. Vai ser lindo. Sei que o público, em geral, vai gostar.
 "Os animais são nossos amigos, o Estado não"
 É este o nosso lema. Não espero outra coisa que o sucesso para esta nossa empresa.
 Entretanto, Mocambel está ao telefone com o soldado principal. Tinham sido descobertos os planos! Foi um pica, malfadado revisor da Rodoviária Nacional que alertara as autoridades, pois tinha cheirado a pólvora nas mochilas. A GNR estava neste preciso momento no encalce do autocarro.
 Tudo está perdido! O ataque, tão demorada e minuciosamente calculado, falhou!...
 Vou para casa...trancar-me no quarto, digo que me dói os dentes ou uma merda qualquer.
 Até sempre camaradas!

 Fmi

quarta-feira, 8 de abril de 2015

"Auto-Mosh"

 Auto-Mosh

 Um dia destes, ao chegar a casa, arrebateu-me esta ideia: fazer um mosh a mim próprio.
 E fi-lo! Atirei-me para cima de mim, com tal violência que parti-me duas costelas, fiquei como o Marylin Manson, e nem a dor incomodava.
 Sentir dor? Ora essa! Nããã! Aguentei-me á jarda, enrolei ligaduras á volta dos meus teclados e siga.
 Após algumas horas é que a dor começou a atormentar. Também não me importei muito, mamei um ópio do povo e esperei. No dia seguinte é que foi pior, as malditas dores fustigavam com violência. Dores e mais dores. Até que alguém da minha familía levou-me ao hospital. Ainda esperniei , mas lá fui á força.
 Semanas a apanhar cús médicos e cas enfermeiras jeitosas ás quais pedia ópios do povo (e davam-me). Lá fiquei curado e mandaram-me para casa. Encantado da vida, pus uma musiquinha da moda, desviei os móveis e...Mosh!!!!!

 Fim

sábado, 27 de setembro de 2014

"Guerra sem fim"


Foi um estranho amanhecer.

 Um soldadinho de chumbo desceu do jipe. O pó levantado pelo embate das botas no chão seco foi rapidamente inalado pelas suas narinas. Fazia sempre aquilo cada vez que pisava solo inimigo.
 O céu cor-de-laranja cheirava a queimado. O soldadinho reagiu ao silvar de projécteis junto ao seu capacete, e atirou-se energicamente para dentro de uma cratera.
 De seguida, ouviu-se três, quatro bujardas valentes, e foi tanto o pó levantado com as explosões que nem um batalhão de soldadinhos como ele conseguiria aspirá-lo todo!
 O militarzinho estremeceu e colocou-se em posição fetal, cantarolando uma moda antiga para não se focar no medo, tal como tinha sido instruído.
 Ao fim de dois minutos, silêncio.

 Ao colocar a mona de fora, viu dois tanques a cerca de duas papa-léguas de distância a Ó-este, aproximando-se rapidamente.
 Verificou o seu arsenal: uma granada e um pistolim sem munições. Estava numa posição dificil...Deixou-se estar no buraco.O seu jipe já estava todo esfanicado, em resultado das ameixas atiradas por aquelas bestas de guerra.
 Quando estavam mesmo á beira do seu refúgio, saltou de lá de dentro, e, gritando pela sua mãe, enfiou a granada no tubo disparador da carcaça bélica, voltando-se a refundir para escapar á explosão.

 O segundo tanque, destrui-o á chapada.

                                                         FMI

quinta-feira, 15 de maio de 2014

"A Carta de Intenções"

 Foi na floresta profunda que descobri o meu verdadeiro ser.
 Estava escondido atrás de uma árvore, em posição fetal, e tremia como varas verdes.
 Não era belo, o meu verdadeiro ser. Era feio, feio comoá noite e a podridão intrínseca das coisas que de podre jamais passarão. Tresandava a ódio e medo, tal e qual o cheiro das igrejas.
 Abandonei o local e percorri uma pequena distância e parei junto a uma enorme pedra de chámon.
 Encostei a caçadeira á cabeça e espetei um tiro nos cornos.
 Não sei se morri.
 Hoje, na cidade, sei que o meu verdadeiro ser deambula por entre os predios á minha procura...á procura do meu verdadeiro EU.

domingo, 4 de março de 2012

"Hospital Mamilar"


"-D. Maria Pirralho Falcão, é favor dirigir-se ao balcão das assaduras."

 -Boa tarde. O meu nome é Maria Falcão.
 -Pirralho?
 -Sim.
 -Então diga.
 -Bem...tenho uma assadura na mama esquerda.
 -O.K., é grave?
 -Gravíssimo! Nem lhe posso tocar!
 -Vai fazer o seguinte: vai demolhar a mama em magma quentinho, 1/2 hora por dia.
 -Ai sim? E quanto tempo demora a passar?
 -Não sei precisar...mas garanto que, no máximo, em três semanas tem a teta nova
 -Muito obrigado! Assim o farei!

                                                          FMI